top of page
Buscar

FELIZ NATAL, MALUCOS



Ela sempre gostou do natal mas nunca lhe ligou como era devido. Outras coisas interpuseram-se. A sua estadia em vários hospitais psiquiátricos e a precariedade laboral, mas este ano ela sabia, seria diferente. Até porque se tinha apaixonado e fazia já dois anos. Ele era lindo, mas podia ser uma ela também, e não era só lindo, era também terno e inteligente. Ela tinha lido naqueles pasquins de opinião da internet que o que se queria mesmo era uma pessoa terna, inteligente e com sentido de humor, então ela adoptou um cachorro. Até podia ter sido uma cachorrinha, mas bem, foi o que calhou, quando viu a fotografia no OLX, pensou imediatamente, ok, é para mim e eu para ele. A sua vida melhorou um bocadinho mais. Ficou mais paciente e com uma visão mais optimista da vida, na medida em que quando passava por pontes admirava a vista em vez de indagar se se atirasse delas morria finalmente ou ficaria somente incapacitada.

Deu-lhe um nome. Ele também pareceu gostar dela e sentiam-se confortáveis só a olhar um para o outro. Em silêncio. Ela mostrou-lhe as músicas e álbuns preferidos e ele pareceu gostar. Quando metia os oldies do cinema, enroscavam-se a ver. O sentimento de ausência permanente pareceu diluir-se nos olhos dele. E nos dela que o olhavam de volta. Quis arranjar uma árvore de Natal. Não tinha uma desde criança. Queria uma natural. Ligou para floristas da sua zona. Havia uma. A cerca de trinta minutos a pé. Foi.

Tinha o dinheiro contadíssimo. 20 euros. Imaginava-a já grande e viçosa, cheia de enfeites e luzinhas na sua sala pequenina. Meteu-se a caminho. Estava frio e estava escuro mas ela continuou. Meteu os headphones e lá foi. Não sentiu o frio nem o cansaço mas a cinco minutos do percurso, distinguiu uma figura no final da rua. Não lhe inspirou medo ou qualquer género de receio, mas uma estranha e reconfortante familiaridade. A figura levantou o braço como a indicar-lhe que veio em paz e os seus contornos eram de facto, tremelicantes, como se tivesse vindo dos meandros mais rocambolesco de um sonho. Aproximou-se na sua ingenuidade, mas com a timidez habitual.

- Há tanto tempo.

E abraçaram-se.

-Não é assim tanto tempo porque eu tenho estado convencida que és a minha anjo da guarda.

- Dessas coisas não posso falar nem confirmar, mas feliz fico que sintas isso. É reconfortante.

- Sim. Como é onde estás?

- Quentinho quando é preciso e mais frio quando necessário. Não é mau.

- Viste lá o Kurt Cobain?

- Talvez. E mais uns quantos e quantas.

- Deve ser altamente.

- É só plácido. E tu fumas muito.

- Sim.

- Sabes que os vícios ficam todos por cá.

- Vou sentir falta dos meus cigarrinhos.

- Ainda tens muito tempo para eles.

- Nunca te tinha visto assim.

- Desiludi?

- Não.

- O que achas de matar uma pessoa?

- Não me parece que seja uma coisa que queira fazer.

- Eu ajudo-te. Mas abre a pestana. É o que vai acontecer em…3…2….1

 

Primeiro ouviu os carros a chocar e mil e uma buzinas. Depois viu. Um, dois, e depois uma enchente deles.

- Zombies.

- Sim, meu amor.  Ficaram tão dependentes do chat gpt, gemini e merdas que ficaram assim.

- Cabrões! Dá-me um pau com espigas de metal. Vai tudo a eito.

 

Depois de rechaçar cérebros e ter sangue sobre si. Percebeu que não havia regras ou limites mas que havia uma árvore para levantar.

 

A florista, apesar do caos, assumiu ainda uma postura bastante profissional e entregou-lhe a árvore.

- E o dinheiro? Acha que vai valer alguma coisa?

- Dificilmente.

E saiu com a árvore.

As pessoas comiam-se todas. Era de facto um espetáculo incrível e deplorável.  

Deu a mão ao seu anjo da guarda.

- Vou levar-te a casa.

- Agradeço. Porque está complicado.

Sentiu o sangue subir-lhe na glote. Sabor de ferrugem. Ouviu berros. Grunhos. Gritos.

Entrou em casa. Barricou tudo com madeira. Ah, um dia apanham-me, mas não hoje.

Montou a árvore e enfeitou-a com as luzes a que tinha direito. Olhou para o seu cachorro que a esperava há muito tempo.

- Tu és qualquer coisa de especial.

E ele ladrou, porque sabia que sim.

- Amo-te. Tens mesmo de ir embora?

- Sim. Se usares AI para a vida vais ficar como eles. Promete-me que nunca te vais render.

- Sim.

- É nojento mas nem que tenhas de rezar.

Ela acedeu.

- NUNCA TE VOU ESQUECER.

- Eu sei.

Colocou a estrelinha na árvore. As luzinhas. Pisk pisk. Sempre a brilhar.

 

CZ

 

17 DEZEMBRO 2025

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
SEMPRE LONGINQUA

Ajuda-me. Não gosto da minha figura quando me olho ao espelho nem tão pouco da minha atitude. Ajuda-me. Sinto-me fraca e inconsequente....

 
 
 
Crocolude

Tens o sangue frio. O meu sempre foi quente e tímido. Nunca te importaste que tivessem medo de ti ou te achassem mais feio que o susto....

 
 
 

Comentários


bottom of page