FELIZ NATAL, MALUCOS
- claudiazafre
- 18 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Ela sempre gostou do natal mas nunca lhe ligou como era devido. Outras coisas interpuseram-se. A sua estadia em vários hospitais psiquiátricos e a precariedade laboral, mas este ano ela sabia, seria diferente. Até porque se tinha apaixonado e fazia já dois anos. Ele era lindo, mas podia ser uma ela também, e não era só lindo, era também terno e inteligente. Ela tinha lido naqueles pasquins de opinião da internet que o que se queria mesmo era uma pessoa terna, inteligente e com sentido de humor, então ela adoptou um cachorro. Até podia ter sido uma cachorrinha, mas bem, foi o que calhou, quando viu a fotografia no OLX, pensou imediatamente, ok, é para mim e eu para ele. A sua vida melhorou um bocadinho mais. Ficou mais paciente e com uma visão mais optimista da vida, na medida em que quando passava por pontes admirava a vista em vez de indagar se se atirasse delas morria finalmente ou ficaria somente incapacitada.
Deu-lhe um nome. Ele também pareceu gostar dela e sentiam-se confortáveis só a olhar um para o outro. Em silêncio. Ela mostrou-lhe as músicas e álbuns preferidos e ele pareceu gostar. Quando metia os oldies do cinema, enroscavam-se a ver. O sentimento de ausência permanente pareceu diluir-se nos olhos dele. E nos dela que o olhavam de volta. Quis arranjar uma árvore de Natal. Não tinha uma desde criança. Queria uma natural. Ligou para floristas da sua zona. Havia uma. A cerca de trinta minutos a pé. Foi.
Tinha o dinheiro contadíssimo. 20 euros. Imaginava-a já grande e viçosa, cheia de enfeites e luzinhas na sua sala pequenina. Meteu-se a caminho. Estava frio e estava escuro mas ela continuou. Meteu os headphones e lá foi. Não sentiu o frio nem o cansaço mas a cinco minutos do percurso, distinguiu uma figura no final da rua. Não lhe inspirou medo ou qualquer género de receio, mas uma estranha e reconfortante familiaridade. A figura levantou o braço como a indicar-lhe que veio em paz e os seus contornos eram de facto, tremelicantes, como se tivesse vindo dos meandros mais rocambolesco de um sonho. Aproximou-se na sua ingenuidade, mas com a timidez habitual.
- Há tanto tempo.
E abraçaram-se.
-Não é assim tanto tempo porque eu tenho estado convencida que és a minha anjo da guarda.
- Dessas coisas não posso falar nem confirmar, mas feliz fico que sintas isso. É reconfortante.
- Sim. Como é onde estás?
- Quentinho quando é preciso e mais frio quando necessário. Não é mau.
- Viste lá o Kurt Cobain?
- Talvez. E mais uns quantos e quantas.
- Deve ser altamente.
- É só plácido. E tu fumas muito.
- Sim.
- Sabes que os vícios ficam todos por cá.
- Vou sentir falta dos meus cigarrinhos.
- Ainda tens muito tempo para eles.
- Nunca te tinha visto assim.
- Desiludi?
- Não.
- O que achas de matar uma pessoa?
- Não me parece que seja uma coisa que queira fazer.
- Eu ajudo-te. Mas abre a pestana. É o que vai acontecer em…3…2….1
Primeiro ouviu os carros a chocar e mil e uma buzinas. Depois viu. Um, dois, e depois uma enchente deles.
- Zombies.
- Sim, meu amor. Ficaram tão dependentes do chat gpt, gemini e merdas que ficaram assim.
- Cabrões! Dá-me um pau com espigas de metal. Vai tudo a eito.
Depois de rechaçar cérebros e ter sangue sobre si. Percebeu que não havia regras ou limites mas que havia uma árvore para levantar.
A florista, apesar do caos, assumiu ainda uma postura bastante profissional e entregou-lhe a árvore.
- E o dinheiro? Acha que vai valer alguma coisa?
- Dificilmente.
E saiu com a árvore.
As pessoas comiam-se todas. Era de facto um espetáculo incrível e deplorável.
Deu a mão ao seu anjo da guarda.
- Vou levar-te a casa.
- Agradeço. Porque está complicado.
Sentiu o sangue subir-lhe na glote. Sabor de ferrugem. Ouviu berros. Grunhos. Gritos.
Entrou em casa. Barricou tudo com madeira. Ah, um dia apanham-me, mas não hoje.
Montou a árvore e enfeitou-a com as luzes a que tinha direito. Olhou para o seu cachorro que a esperava há muito tempo.
- Tu és qualquer coisa de especial.
E ele ladrou, porque sabia que sim.
- Amo-te. Tens mesmo de ir embora?
- Sim. Se usares AI para a vida vais ficar como eles. Promete-me que nunca te vais render.
- Sim.
- É nojento mas nem que tenhas de rezar.
Ela acedeu.
- NUNCA TE VOU ESQUECER.
- Eu sei.
Colocou a estrelinha na árvore. As luzinhas. Pisk pisk. Sempre a brilhar.
CZ
17 DEZEMBRO 2025
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